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ANO 40 - Nº 9513 - Vale do Taquari, Lajeado, edição de quinta-feira, 21 de abril de 2011
Capa |
21/4/2011 1h48m - Especial
Preso em Lajeado: Falso médico clinicava desde 2005 na região (versão impressa)

Vale do Taquari - ma história difícil de acreditar. Até para quem convive com os inúmeros problemas diários na saúde pública da região. E um deles pode ter gerado outra situação ainda mais grave. Com a falta de médicos para atuar nos plantões de hospitais de todo o Estado, os interessados conseguem vaga assim que há a dificuldade para preencher a escala do mês. Basta atender aos requisitos e apresentar a documentação pessoal e o CRM, que é registro do médico no Conselho Regional de Medicina. Acontece que Edison Moraes Bottaro, natural de São Luiz Gonzaga, teria prestado inúmeros atendimentos em cidades do Rio Grande do Sul e, pelo menos, em cinco do Vale do Taquari: Teutônia, Arroio do Meio, Estrela, Encantado e Roca Sales. Mas não era com esse nome que ele receitava e atuava nos hospitais. Ele estaria utilizando o CRM 19.210, de Adelino Marques, profissional que exerce a medicina em Canoas e reside em Porto Alegre. A acusação é de que Bottaro se passava por médico, e até já havia sido detido pela prática do mesmo crime.
Apresentando-se como Adelino Marques, chegou a manter relação pessoal com comunidades onde atuava, em especial, em Estrela. Frequentava praticamente todas as semanas o Mercado Schneider, que fica a poucos metros do Hospital Estrela, onde clinicava. As pessoas que por lá circulavam estavam perplexas com a denúncia. “Não pode ser!”; “quem, aquele que vinha aqui no bar?”, perguntavam, referindo-se também à sua presença no bar que ficava junto do mercado. Ele até dormia na residência dos proprietários do estabelecimento tamanha a confiança que a família depositava no médico. “Ah! Ele era um médico. É claro que confiamos logo!”, afirmava Elaine Schneider ontem à tarde, em meio a fotografias das festas das quais o suposto Adelino Marques participava. Ela ficou abismada com a confirmação de sua prisão, dizendo que, até então, ouvia apenas boatos de que ele não era mesmo o médico Adelino, o qual possuía aquele registro no CRM carimbado em uma receita prescrita para um familiar seu. “Seguidamente ele nos atendia e repassava várias receitas.”

Prisão
Edison Moraes Bottaro (55), natural de São Luiz Gonzaga, foi preso na manhã do dia 31 de março, por volta das 7h20min, em um apartamento situado na Rua Três de Outubro, Centro de Santo Ângelo, acusado de falsidade ideológica e exercício irregular da profissão. Ele foi detido pela equipe da força-tarefa do Ministério Público (MP) de Porto Alegre e por policiais civis.
Sua prisão contou com apoio logístico do Serviço de Inteligência Policial e Análise Criminal da 13ª Delegacia Regional de Polícia da capital missioneira. Ele possuía mandado de prisão, busca e apreensão expedido pela Vara de Execuções Criminais da Comarca de Estrela. Após ser preso, o acusado foi recolhido ao presídio regional de Santo Ângelo e levado ao presídio de Lajeado, onde está recolhido.

Reincidência
O promotor de Justiça João Nunes Ferreira afirma que Bottaro já possuía condenação, mas estava, antes de ser preso em 31 de março, em liberdade condicional. O site da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul, em uma publicação ainda de 14 de agosto de 2003, já noticiava que agentes da Delegacia de Torres haviam prendido Edison Moraes Bottaro, então com 49 anos, em sua residência, no Centro de Santo Ângelo. “Bottaro teria trabalhado, no período do verão desse ano, como médico plantonista no Hospital Nossa Senhora dos Navegantes, em Torres, onde atendeu mais de 280 pessoas. Em um de seus plantões, uma paciente veio a falecer, com hemorragia interna, após ter sido medicada apenas com remédio para dor”, diz a nota. Naquela época, ele atuava com o seu nome, até porque, segundo relatos, ele teria cursado medicina em Córdoba, na Argentina.
As investigações teriam sido iniciadas, na época, após a morte de uma mulher, de 36 anos, que teria sido atendida por Bottaro em 6 de março de 2003. A paciente teria dado entrada no Hospital Nossa Senhora dos Navegantes com fortes dores nas costas e abdômen. Sete dias antes havia feito uma cesárea com ligadura de trompas, quando nascera um menino. Bottaro teria receitado uma injeção de Voltaren e mandou a mulher voltar para casa. Após 15 minutos esta retornou ao hospital com o marido, já com parada cardiorrespiratória. Por quase quase uma hora os médicos tentaram reanimá-la, sem sucesso. A necropsia do Departamento Médico Legal (DML) de Osório constatou que a paciente estava com hemorragia interna. O marido chegou  até a registrar ocorrência na DP de Torres.

Tudo começou por notificação da Receita Federal
Segundo o Ministério Público de Porto Alegre, por meio da assessoria do promotor João Nunes Ferreira, o caso veio à tona em razão de denúncia do próprio médico lesado. Este, que reside em Porto Alegre e estaria trabalhando em Canoas, procurou a investigação especializada criminal para delatar que havia outra pessoa passando-se por ele. Sua descoberta foi a partir de uma notificação da Receita Federal, que identificou discrepâncias nas declarações. Até porque o médico não havia declarado por receitas recebidas em seu nome, mas, na verdade, pagas a Edison Bottaro, que teria se utilizado do nome de Marques.
O advogado do Sindicato dos Hospitais do Vale do Taquari, Jorge Ricardo Decker, frisa que o médico Adelino Marques enviou, ao Hospital Ouro Branco, de Teutônia, documento solicitando que a instituição de saúde retirasse, da Receita Federal, a informação do pagamento de honorários para ele e pedia uma retificação porque teriam sido declarados valores que ele não havia recebido. Até porque o montante divulgado pelo hospital referia-se ao trabalho do falso médico, que se utilizava do nome de Marques.
Depois de apresentada a denúncia, a investigação foi iniciada - em dezembro de 2010 - e, assim que identificado o acusado e percebido que ele já tinha antecedentes, foi deferido pela Comarca de Estrela o pedido de prisão preventiva. E em 31 de março, ele foi preso em sua residência, em Santo Ângelo. Agora ele está sendo processado pelos crimes de exercício ilegal da profissão e falsidade ideológica.

“Era um médico diferente”
Elaine Maria Schneider custava, ontem, a acreditar que seu amigo estava preso e que havia cometido os crimes pelos quais está sendo acusado. “Ele sempre foi uma pessoa muito boa e nunca fez nada de errado aqui. Era muito engraçado, e todos gostávamos dele, até porque era um médico diferente dos outros profissionais. Nos fins de semana vinha seguido aqui no bar”, dizia ontem, decepcionada. Até chegou a fazer contato com o médico que se apresentava como Adelino Marques Mendes há cerca de três semanas. “Achei estranho que ele não estava mais vindo aqui, e como ‘pegamos’ amizade, liguei para ver se estava tudo bem. Ele disse que sim e que passaria aqui, mas nunca mais apareceu”, reforça Sandra Schneider, que também responde pelo Mercado Schneider, cujo espaço inclui um bar a poucos metros do hospital.
Ambas confirmam que sempre que precisavam, ele fazia atendimentos médicos e até receitava medicamentos. “O pi­or é que funcionava, pelo menos comigo. Penso até como que ele poderia saber tanto de medicina...”, questiona Elaine. Até em razão disso, elas jamais desconfiavam de que ele poderia não ser um profissional da medicina. “A gente ficou impressionada por ter um médico aqui no nosso bar. Sabe como é, a profissão tem aquela coisa de ser chique.” As suspeitas apareciam somente quando ele dizia que residia em Canoas, onde teria família, mas era para Porto Alegre que ele sempre comprava as passagens, sendo que o prefixo de seu telefone era de Santa Maria. “Ele ligava aqui do nosso telefone para a rodoviária e sempre ia para a capital. Alguns dias ele até dormia aqui na casa (residência junto ao mercado)”, afirma Elaine.
Isso porque, segundo ela, Marques - ou Edison Bottaro, como era seu nome verdadeiro - era de “extrema” confiança. Ele até participava das festas realizadas no local e gostava de tomar uma cerveja.
Opinião contrária tem Gladis Maria Schonarth, que foi atendida por ele no Pronto-Socorro do Hospital Estrela há cerca de seis meses. “Ele foi muito grosso e até fiquei traumatizada de procurar o PS. Ele nem me examinou e já saiu dando receita. Ainda bem que não tomei os remédios que ele me deu.”

Decker sugere melhor fiscalização
Jorge Ricardo Decker, que atua no escritório Decker e Schuck Advogados, contratado pelo Sindicato dos Hospitais do Vale do Taquari, frisa que para a casa de saúde fica difícil identificar a situação, já que o acusado apresentava as documentações necessárias. “Não tinha como desconfiar. O que falta é fiscalização do Cremers, que é consultado, mas acaba por se limitar a dizer que o CRM pesquisado está em dia. Acredito que o sistema deveria ser diferente, mais completo.”
Em Teutônia, onde Decker também atua, foram registrados atendimentos no ano de 2005. “Era uma técnica adotada pelo falso médico, de não ficar muito tempo em um único lugar. Por isso que ele rodou pelo Rio Grande do Sul, pois fazia poucos atendimentos em cada hospital.” Ele esteve em Guaíba, onde havia investigação, passou por Novo Hamburgo, Vale do Taquari e depois, quando percebeu que estava sendo investigado, foi para Santo Ângelo, onde foi preso.
A princípio, frisa Decker, Bottaro teria feito atendimentos nos hospitais de Teutônia, Arroio do Meio, Estrela, Encantado e Roca Sales, todos no sistema de plantão. Isso significa que o profissional não fazia parte do quadro da instituição de saúde.
Em termos de reação dos hospitais, o advogado explica que não há o que ser feito, a não ser indenização por danos morais, o que não deve ser encaminhado. “Graças a Deus que não houve prejuízos maiores em relação a pacientes. Não há casos de negligência, pelo menos não denunciados. Isso até dificultou a identificação do caso, já que ele tinha conhecimentos dos procedimentos.” A orientação é de que, se eventualmente alguém ainda esteja tomando medicamento que ele havia receitado, deve cessar e procurar um novo médico. A assessoria jurídica do Cremers orienta para que as pessoas que se sentiram lesadas procurem a Delegacia de Polícia de sua cidade e façam a ocorrência policial. A partir daí cada caso passa a ser investigado.

Klein vai sugerir sistema mais minucioso de pesquisa
O conselheiro do Cremers e diretor técnico do Hospital Bruno Born, Cláudio Klein, fala também da dificuldade na descoberta dessa situação até em razão da ingerência do Cremers, que só tem atuação sobre quem é médico. “Como ele não era médico, não havia muito a fazer. Até foi aberta sindicância no Cremers, mas a questão foi encaminhada à polícia para que fossem tomadas as devidas providências.” Diz que na década de 1980 houve um caso em que o CRM foi inventado. “Aí fica mais fácil de detectar.”
Ele diz que, como diretor técnico do HBB, busca sempre a exigência da apresentação de toda a documentação. Como no pronto-socorro há uma grande rotação, a dificuldade é da mesma proporção, já que os médicos são contratos para cobrir plantões e não como funcionários da instituição.
Mas, para tentar dificultar que casos como esse voltem a se repetir, Klein afirma que vai encaminhar ofício, para o Conselho Regional de Medicina, reiterando o problema e solicitando que se estude uma forma de implantar um sistema mais amplo para consulta, contendo dados, telefone de consultório, fotografia e outras informações do médico. “Acredito que devemos discutir até com o conselho federal essa questão.”

“Não fomos informados de nada ainda”
A administradora do Hospital Estrela, irmã Teresia Steffen, estava perplexa com a situação. “Não fomos informados de nada ainda. Tudo o que sabemos é de boatos ou o que a imprensa tem nos repassado.” Confirma que um médico com o nome de Adelino Marques prestou serviços no hospital por cerca de dois anos, mas que quando começou a trabalhar no pronto-socorro, sempre em plantões, apresentou toda a documentação exigida, desde o CRM, CPF, identidade e cópias de outros documentos pessoais. “Como ele não era contratado, e prestava serviços esporádicos, não tínhamos muito contato. Ele era chamado conforme a necessidade em razão da falta de profissionais na nossa escala mensal de plantonistas.”

Carine Schwingel
carine@informativo.com.br


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