Índio na natureza: Relação histórica de sobrevivência

 

 

Difícil visualizar, mesmo que mentalmente, o Brasil de 500 anos atrás. Como era o ambiente? Era o paraíso pouco modificado pela ação do homem? Este olhar, no entanto, fica mais evidente para os indígenas que são nativos e, de geração em geração, tiveram o trabalho de ensinar sua cultura, rituais e costumes aos mais jovens. E, como uma roda que gira, é fácil ouvir um cacique falando de séculos passados como se fossem ontem. A relação do índio com o meio ambiente, embora apresente mudanças, continua sendo estreitamente entrelaçada.

O cacique Francisco Rokãn dos Santos (51), que há dois meses assumiu a Aldeia Fosá, situada no Bairro Jardim do Cedro, Lajeado, considera que o olhar do índio sobre o meio ambiente é diferente que do “homem branco”.

“Quando o Brasil foi invadido, meio ambiente era, para nós, muito agradável, e a gente tirava sustento deste ambiente natural. Hoje dificultou muito. E nosso olhar é tentar defender o que resta.” Seu Francisco nasceu numa tribo, em Nonoai, bem ao norte do Estado.

Em seus anos de viagem pelo Rio Grande do Sul, em contato com diversos territórios, a sabedoria do cacique entende que a proteção do meio ambiente está ligada à sobrevida. “Sem mato, não temos alimento. No passado, fazíamos artesanato para nosso próprio uso, para colher frutas, carregar peixes. Hoje, o mato não tem mais caça, e somos obrigados a comercializar o artesanato para comprar comida na cidade.”

A aldeia

Atualmente, a Aldeia Kaingang Fosá se situa num pedaço de terras com um pouco de mato, à margem da ERS-130. Ali tem oito casas, onde moram 16 famílias. Cerca de 70 pessoas formam o povoado.

A ligação dos indígenas com Lajeado é histórica. O cacique Francisco Rokãn conta que seus antepassados sempre tiveram território nestas redondezas. “Eles deixavam suas esposas na aldeia e utilizavam os rios da região para trazer alimento para a comunidade.” Num certo momento, algo em torno de 60 anos atrás, o caincangue lembra que o governo obrigou as pequenas aldeias a se retirar para os grandes territórios, aglomerando os povos no Alto Uruguai, em Nonoai. “De lá, a gente não podia sair.

Mas em 1988, com a nova Constituição Federal, as leis começaram a reconhecer os indígenas como cidadãos. Hoje nós votamos, elegemos prefeito, vereadores, presidente. De menores passamos para cidadãos com direito de ir e vir, e isso deu ao índio o prazer de voltar aos seus territórios antigos. Diz o mandamento do indígena que ele não pode deixar sua moradia, porque é território sagrado e não dá para sair daqui.”

 

 

Educação

As crianças da aldeia estudam em escolas regulares para aprender o português, mas dentro do povoado há um professor que leciona a língua caingangue. Uma vez por semana, cada turma tem aula com o professor Ezequiel Loureiro que se alfabetizou em Nonoai. “Não importa o lugar onde estamos, temos que manter nossa cultura. A nossa língua não pode ser perdida, temos que valorizá-la. E é importante exercitar ela (sic) porque as crianças já crescem no meio urbano com a influência de outra cultura”, enfatiza Loureiro.

“Os pequenos cooperam, os grandes não”

O cacique conta que, em Nonoai, até seus 9, 10 anos, tomava água de nascente. Hoje não é mais possível porque as fontes secaram. “A água que saía filtrada do próprio chão se acabou e, para nós, isso é uma doença. Nosso Rio Grande do Sul está cheio de eucalipto que suga nossa água, está acabando com nossa floresta e não dá fruto para os pássaros”, protesta o indígena.

Para ele, porém, o maior problema relacionado à escassez dos recursos naturais é a atuação das grandes empresas, as que não têm responsabilidade com o meio onde estão inseridas. “Os pobres, os pequenos cooperaram, os grandes não. Nós não pensamos em dinheiro, em ficar rico. Eu não quero comprar uma aeronave. Minha missão é cuidar do meio ambiente, ter comida decente, ter saúde e educação. Com isso já me considero riquíssimo.”

Artesanato

Se a flecha já fez tanto sentido para o índio nas caças do passado, hoje é o artesanato que garante comida para as famílias. As habilidades manuais com materiais encontrados na própria natureza garantem renda para a aldeia.

O cacique Francisco conta que quando a Fundação Nacional do Índio (Funai) surgiu, em 1967, ela teria orientado os indígenas a ser agricultores. “Meu pai era obrigado a plantar. Mas como sem recurso e com áreas degradadas iríamos produzir? Então, com meus 14 anos, comecei a fazer flechas para vender, e eu entendi que poderia viver do meu próprio artesanato e ter sustento com meus costumes”, relata.

Dessa maneira, a convivência com o meio urbano se aproximou. “A gente convive com a cidade. Temos esse câmbio de vender artesanato lá para comprar comida para nossos filhos.” No entanto, o líder estranha ainda algumas reações dos outros homens. “Ainda existe aquele branco que diz que se eu fosse índio eu tinha que andar pelado, não tinha que estar usando celular. Se eu for andar pelado, eu vou preso. Tivemos que nos adaptar ao modo de viver do branco.”

O cacique faz sim uso de telefone móvel e considera importante essa tecnologia. “A tecnologia facilita a comunicação e temos que aceitá-la.” Só que ele faz questão de salientar que a tecnologia em que mais acredita é a do seu povo. “Esta não falha. A minha experiência está na lua, ela me mostra quando vai chover”, frisa o caingangue.

 

Cintia Marchi
cintia@informativo.com.br

 

VN:F [1.9.1_1087]
Avalie este post:
Rating: 3.5/5 (2 votes cast)
VN:F [1.9.1_1087]
Rating: 0 (from 0 votes)
Índio na natureza: Relação histórica de sobrevivência, 3.5 out of 5 based on 2 ratings

Tags: , , , ,

Deixe um comentário